
“Eu sei exatamente o que devia fazer. Então porque é que não consigo fazê-lo?”
Esta é uma pergunta frequente no início de muitos processos de coaching que acompanho. Muitas pessoas chegam até mim numa fase em que já leram livros, ouviram podcasts, fizeram cursos de desenvolvimento pessoal… e, mesmo assim, continuam a repetir os mesmos padrões de comportamento.
Sabem que deviam impor limites, em casa ou no trabalho, mas continuam a dizer que sim a tudo.
Sabem que aquela relação não lhes faz bem, mas mantêm-se nela.
Sabem que estão preparadas para avançar profissionalmente, mas continuam a adiar decisões importantes.
Têm a informação e o conhecimento necessários para fazer diferente e, ainda assim, continuam no mesmo registo de sempre.
E não, isto não acontece porque temos “falta de força de vontade”.
Isto acontece porque conhecimento e ação não são a mesma coisa. Nunca foram.

Saber não chega para mudar comportamentos
Vivemos numa época em que é possível encontrar respostas para quase tudo com uma pesquisa rápida. Há a Inteligência Artificial com as suas respostas em poucos segundos. Há artigos, vídeos, cursos, perfis de Instagram e de LinkedIn dedicados à “mudança de vida” por essa internet fora e que se multiplicam todos os dias. E continuamos a pesquisar e a pesquisar, na ilusão de que mais informação vai resolver o nosso problema.
Sabemos o que deveríamos fazer para cuidar da saúde.
Sabemos quais são os hábitos que nos fariam sentir melhor.
Sabemos que procrastinar nos afasta dos nossos objetivos.
Sabemos que a autocrítica constante prejudica a nossa autoestima.
Sabemos isto tudo, mas isso não significa que consigamos pô-lo em prática.
Afinal, se a informação fosse suficiente para mudar comportamentos, bastaria um livro para transformar uma vida. E a nossa experiência de vida já nos mostrou que não é bem assim que funciona.
Tenho acompanhado várias mulheres que, quando chegam à sessão, passaram anos a acumular conhecimento sobre autoconhecimento, autoestima e produtividade, sem que isso se traduzisse na mesma medida em mudanças efetivas no seu dia a dia. Ou seja, apesar de terem ao seu dispor (quase) todo o conhecimento necessário, continuam a sentir-se bloqueadas.
A investigação em psicologia comportamental explica-nos porque é que isto acontece, mostrando-nos que a maior parte das nossas decisões e ações não é guiada pelo pensamento consciente, mas por padrões automáticos, hábitos e associações que fomos aprendendo ao longo do tempo.
Então, é possível perceber que o principal problema nestes casos é não conseguir transformar o que já sabemos em ação consistente.

Pensar mais ajuda sempre a decidir melhor?
Há uma crença muito comum, sobretudo entre mulheres, de que quanto mais pensamos sobre uma decisão, mais seguras ficaremos. Isto faz sentido: queremos evitar erros, manter tudo sob controlo e garantir que escolhemos “bem”.
À primeira vista, pensar bastante antes de tomar uma decisão parece um comportamento responsável. Porém, na prática, muitas vezes, o efeito é o oposto e acabamos bloqueadas.
Este ciclo de analisar e voltar a analisar, pesar cenários, rever prós e contras e, ainda assim, não conseguir avançar, tem um nome: paralisia por análise.
Na realidade, o que acontece é que, quanto mais tenta encontrar a decisão perfeita, mais aumenta a pressão interna sobre si e menor se torna a probabilidade de agir, porque, na verdade, está à espera de saber coisas que, muitas vezes, só se conseguem perceber depois da ação.
E, assim, conseguimos entender que a dificuldade em optar por A ou B não tem que ver com as opções que temos à frente; muitas vezes, o que nos falta é identificar, de forma consciente, o que é realmente importante para nós: os nossos valores, necessidades e limites.
Sem esta base, qualquer decisão parece demasiado arriscada, porque não existe um critério sólido. E é por isso que duas pessoas, com a mesma informação, tomam decisões completamente diferentes.

Porque repetimos comportamentos que nos prejudicam?
“Porque é que continuo a fazer isto, se já sei que me faz mal?”
Esta é outra pergunta que ouço tantas vezes em sessão. Muitas pessoas que chegam até mim já reconhecem a repetição de padrões de procrastinação, a autossabotagem, a dificuldade em dizer “não”, mesmo depois de muita reflexão.
Como já lhe disse, a resposta para modificar estes comportamentos, que identificamos como prejudiciais, não está apenas no que pensamos de forma consciente, porque, já vimos, grande parte do nosso comportamento é automático.
O cérebro aprende padrões ao longo da nossa vida: respostas emocionais, hábitos, mecanismos de proteção que, em algum momento, fizeram sentido.
E é por isso que uma parte de si pode querer avançar, enquanto outra faz tudo para a manter naquilo que já conhece. É um mecanismo automático de defesa para a proteger:
- Da rejeição.
- Do fracasso.
- Da crítica.
- Da exposição.
- Do desconforto.
Então, quando estas duas forças entram em conflito – por um lado, o desejo de crescer e, por outro, o desejo de se manter em segurança – a capacidade para agir pode ficar comprometida. E, vista de fora, essa dificuldade em agir é facilmente interpretada como “falta de força de vontade”, quando, na verdade, é o seu sistema interno a tentar protegê-la.

O cérebro procura segurança, não crescimento
Existe a ideia romântica de que o nosso cérebro está “programado” para nos fazer felizes. Mas, na realidade, do ponto de vista evolutivo, a prioridade do cérebro é outra: garantir a sobrevivência.
E sobrevivência, para o cérebro, significa previsibilidade.
Tudo o que é novo, incerto ou nos expõe à avaliação dos outros pode ser interpretado como ameaça, mesmo que, racionalmente, saibamos que não estamos perante um perigo real.
Uma promoção.
Uma mudança de carreira.
Uma conversa difícil.
Terminar uma relação.
Começar um projeto próprio.
Qualquer um destes passos pode ativar respostas de medo, ansiedade ou evitamento. E não está “a exagerar”; simplesmente, o nosso sistema nervoso foi desenhado para reagir a potenciais ameaças de forma rápida, mesmo antes de pensar.
Ou seja, aquilo a que pode andar a chamar de “falta de confiança” pode ser, afinal, um mecanismo automático de proteção.
Nem tudo é emocional: o papel do corpo e da bioquímica
Mas há outro ponto a ter em consideração, e que ainda é pouco falado quando se fala de motivação, disciplina ou “entrar em ação e fazer acontecer”: o papel do corpo na nossa capacidade para agir.
Não somos apenas mente. Por isso, o nosso estado físico e bioquímico influencia diretamente a forma como pensamos, sentimos e agimos.
Fatores como:
- Privação de sono
- Stress crónico
- Alterações hormonais (por exemplo, ao longo do ciclo, pós-parto, perimenopausa)
- Alimentação e deficiências nutricionais
- Desequilíbrios em neurotransmissores ligados à motivação, atenção e bem-estar (como a dopamina e a serotonina)
podem dificultar o começo de tarefas, manter a consistência ou gerir emoções intensas.

E, ainda que nem todos os bloqueios sejam orgânicos, também não é justo reduzir tudo a “falta de disciplina”.
Somos um sistema integrado que inclui corpo, mente, emoções e contexto e ignorar qualquer uma destas dimensões é contar apenas uma parte da história.
Autoconhecimento é essencial. Mas não chega.
O autoconhecimento tem um valor enorme. Sei, por experiência própria e pelos casos que já acompanhei ao longo destes mais de 10 anos, que é ele o ponto de partida para fazermos quaisquer mudanças na nossa vida.
O autoconhecimento permite-nos reconhecer padrões, identificar gatilhos emocionais, perceber necessidades, clarificar valores.
Mas não podemos cair em equívocos e acreditar que perceber o padrão é suficiente para o transformar.
Na prática clínica e no coaching, é muito frequente encontrar pessoas que, racionalmente:
- Sabem explicar de onde vem o medo de dizer “não”.
- Conseguem identificar a origem do perfeccionismo.
- Reconhecem as suas crenças limitadoras.
- Têm total consciência dos próprios padrões de autossabotagem.
E, ainda assim, continuam presas aos mesmos comportamentos.
Portanto, elas até têm um nível de autoconhecimento considerável, mas essa consciência não é sinónimo de mudança.
É como se a consciência abrisse a porta para a mudança que desejam, mas atravessá-la implica novas ações, novas experiências, novas respostas quando o medo aparece.

O que ajuda a mudar (para lá da teoria)
Uma mudança sustentável, seja em que área da vida for, raramente acontece por causa de uma frase inspiradora que vimos no Instagram ou de uma ideia brilhante que nos surgiu ao conversar com alguém.
A verdadeira mudança, aquela que somos capazes de manter ao longo do tempo, com a segurança de que estamos no caminho “certo”, acontece quando começamos a criar experiências diferentes no nosso dia a dia, por muito pequenas que pareçam.
Isto pode significar:
- Dar um passo pequeno para uma entrevista num novo cargo profissional, em vez de esperar pela coragem ou pelo momento certo.
- Ter uma conversa difícil com mais preparação e segura de que tem alguém ao seu lado para falar sobre como se sentiu.
- Experimentar dizer “não” numa situação concreta, com alguém de confiança a acompanhá-la no processo.
- Implementar rotinas simples de descanso e cuidado básico, para que sinta que o seu corpo a acompanha.
- Aprender a tolerar algum desconforto sem o interpretar como prova de que está a fazer algo errado.
A confiança para fazer o que tem de ser feito não nasce de pensar mais e mais. Nasce da evidência, daqueles momentos em que age, mesmo com medo, e descobre que é capaz.
E há muitos benefícios em não fazer este caminho sozinha.
Quando o coaching 1:1 com base em psicologia clínica faz diferença (especialmente para quem “já sabe muito”)
Se sente que já tem muita informação, mas ainda não consegue observar e sentir na sua vida do dia a dia a mudança que desejava, pode ser sinal de que chegou ao limite do que consegue fazer sozinha apenas com reflexão.
Um processo de coaching com base em psicologia clínica, como os que conduzo, foi pensado precisamente para esta fase: quando já lhe não basta compreender e precisa de conseguir mudar na prática.
Nos meus acompanhamentos 1:1, trabalho consigo em três níveis:
- Objetivos e decisões concretas que quer tomar (vida pessoal, carreira, relações, projetos).
- Padrões emocionais, crenças e resistências internas que a bloqueiam sempre no mesmo ponto.
- Criação de condições emocionais e psicológicas para agir com mais estrutura, segurança e consistência.

Desta forma, em vez de ficar apenas “em análise”, tem:
- Espaço para compreender o que está a acontecer consigo.
- Ferramentas de coaching, psicologia e inteligência emocional adaptadas ao seu momento específico.
- Um plano de ação realista e exequível, com passos concretos e um acompanhamento próximo ao longo de todo o processo.
Juntas, vamos garantir que o que sabe e o que sente se refletem no que faz, ao seu ritmo, com profundidade, mas também com resultados práticos.
Uma pergunta para o início da mudança
Se sente que já leu muito, já pensou e pensou, já tentou sozinha e, mesmo assim, continua presa aos mesmos bloqueios, é possível que a questão a fazer agora já não seja:
“O que é que ainda me falta saber?”
Mas:
“O que é que me está a impedir de agir sobre aquilo que já sei?”
Se esta pergunta faz sentido para si e gostava de ter alguém ao seu lado neste processo de autodescoberta – alguém que una a psicologia clínica e o coaching com foco na ação – pode conhecer melhor o meu Programa AMA ou marcar uma sessão individual.
Compreender-se é importante, mas conseguir agir de forma alinhada com quem é e com a vida que quer para si é-o ainda mais.
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Perguntas Frequentes Sobre Saber o Que Deve Fazer e a Dificuldade em Fazê-lo
1. Porque sei o que tenho de fazer e não faço?
Muitas vezes, o que nos impede de agira não é a falta de força de vontade, mas um conjunto de padrões automáticos, medo de sair do que é conhecido e fatores físicos, como stress e cansaço, que bloqueiam a ação.
2. O que é a paralisia por análise?
Paralisia por análise é quando pensa tanto sobre uma decisão, avaliando todos os cenários, que acaba por não conseguir agir, mesmo que saiba o que teria de fazer.
3. Porque repito sempre os mesmos padrões de comportamento?
Repetimos padrões porque o cérebro privilegia o que é previsível e associa certos comportamentos a segurança, mesmo que nos prejudiquem hoje, o que dificulta fazer diferente, sobretudo se estiver a passar por esse processo sozinha.
4. O coaching pode ajudar quando já “sei tudo” e mesmo assim não mudo?
Sim. O coaching individual ajuda a transformar conhecimento em ação, trabalhar medos e resistências internas e criar passos concretos, com apoio, para finalmente fazer o que sabe que precisa.
5. Quando devo procurar o apoio do coaching para deixar de repetir os mesmos padrões?
Quando percebe que já leu, refletiu e tentou sozinha, mas continua a bloquear nas mesmas decisões ou situações, é um bom momento para procurar um profissional de coaching com base em psicologia.
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Nota de Transparência
Este artigo baseia-se no conhecimento psicológico atual sobre emoções morais, autorregulação emocional, motivação humana e processos de mudança pessoal e profissional. As ideias apresentadas são sustentadas por investigação científica, mas foram traduzidas para uma linguagem simples e acessível para facilitar a reflexão e o autoconhecimento no dia a dia.


