Há dias em que sentimos vontade de comentar. Hoje, senti vontade de agradecer.
Há poucos dias, Cristiano Ronaldo despediu-se dos Campeonatos do Mundo – o sexto da sua carreira e, por palavras suas, o último. Quase antes do apito final, já se multiplicavam as análises, os julgamentos, os comentários apressados.
Percebi que não queria juntar-me a esse coro. Queria fazer outra coisa.
Não escrevo este artigo porque ache que Cristiano Ronaldo seja perfeito, até porque perfeito não existe. Nem porque concorde com todas as suas escolhas. Muitas vezes não concordo de todo. E também não porque considere que uma vida pública, por mais extraordinária que seja, deva ficar imune à crítica ou à reflexão.
Escrevo-o porque, por vezes, sinto que nos esquecemos demasiado depressa de agradecer.
Acredite, este artigo não vai ter nada sobre futebol. Confesso que não o saberia escrever. É um artigo sobre gratidão, sobre reconhecimento e sobre aquilo que a Psicologia nos pode ensinar quando olhamos, com serenidade, para alguém que ajudou a escrever uma parte importante da nossa história coletiva.
E é, sobretudo, um agradecimento. Público, pensado e sentido.
A gratidão diz tanto sobre quem agradece como sobre quem recebe o agradecimento
Comecemos longe do futebol.
Porque é tão difícil agradecer?
Em parte, porque a nossa mente não foi concebida para isso. Há décadas que a investigação em Psicologia descreve um fenómeno a que chamamos viés de negatividade: a tendência para darmos mais peso ao que é negativo do que ao que é positivo.
Um erro pesa mais do que dez acertos.
Uma crítica ecoa durante mais tempo do que um elogio.
Uma má decisão recente parece capaz de apagar anos de boas decisões.
Este mecanismo teve a sua utilidade: para os nossos antepassados, ignorar um perigo custava muito mais caro do que ignorar uma alegria. Herdámos essa atenção ao que pode correr mal e, com ela, herdámos também um custo: somos, por defeito, melhores a criticar do que a reconhecer.
Depois, há um segundo mecanismo a que a Psicologia chama adaptação hedónica. Habituamo-nos ao que é bom. O extraordinário, quando se repete, começa a parecer normal. E o que parece normal deixa de nos espantar e, por isso, deixa também de nos parecer digno de agradecimento.
Talvez reconheça este processo na sua própria vida. Na relação que já não surpreende, na saúde que só valorizamos quando falha ou até no esforço de alguém que se tornou invisível de tão constante.
Durante mais de vinte anos, os portugueses habituaram-se a ver um dos seus entre os melhores do mundo. Domingo após domingo, época após época. E aquilo que era espantoso foi-se tornando, aos poucos, expectável. Quase banal. Isto é algo muito humano, mas não é justo.
A gratidão, por seu lado, trabalha no sentido contrário destes dois mecanismos. Na Psicologia, é descrita como a capacidade de reconhecer o papel que os outros – a sua generosidade, o seu esforço, o seu contributo – tiveram nas coisas boas que nos acontecem. Agradecer obriga-nos a parar. A olhar de novo. A devolver visibilidade ao que a habituação tornou invisível.
E a ciência tem vindo a mostrar que este movimento nos faz bem. O estudo que abriu este campo de investigação, no início dos anos 2000, comparou pessoas que registavam regularmente motivos de gratidão com pessoas focadas nas contrariedades do dia a dia; e as primeiras apresentavam níveis de bem-estar consistentemente mais elevados. Desde então, a evidência acumulou-se: revisões recentes, com dezenas de ensaios clínicos e milhares de participantes de vários países, associam a prática da gratidão a melhor saúde mental e a menos sintomas de ansiedade e de depressão.
Importa, contudo, dizer que a gratidão não é uma cura milagrosa. Os efeitos que a investigação encontra são reais, mas discretos. Ainda assim, há aqui algo de significativo. A gratidão não é apenas uma emoção que acontece. É uma prática que se escolhe. E essa prática transforma, em primeiro lugar, quem a exerce.
É por isso que digo que a gratidão fala tanto de quem a expressa como de quem a recebe.
Neste sentido, deixo-lhe a pergunta que atravessa este artigo do princípio ao fim: será que sabemos agradecer enquanto as pessoas ainda estão connosco?
Podemos admirar alguém sem concordar com tudo?
É aqui que entra, finalmente, Cristiano Ronaldo.
Deixe-me ser clara: não concordo com todas as suas decisões. Algumas escolhas da sua vida pública merecem, na minha leitura, uma reflexão séria pelos impactos sociais que podem ter, sobretudo junto de quem é mais vulnerável. Não as vou detalhar aqui, porque este artigo não é sobre isso. E também porque a crítica, para ser útil, precisa igualmente do seu tempo e do seu lugar próprios.
O que me interessa hoje é outra pergunta: seremos capazes de admirar alguém sem precisar de o idealizar?
No acompanhamento de adultos, encontro com frequência um padrão de pensamento a que chamamos pensamento dicotómico: tudo ou nada, oito ou oitenta. Ou a pessoa é boa, ou é má. Ou merece a nossa admiração completa, ou merece a nossa rejeição completa. Este é um padrão compreensível que, por um lado, simplifica o mundo, mas que, por outro, o empobrece. Tal como nos empobrece a nós.
Aplicamos este padrão às figuras públicas com particular facilidade. Primeiro idealizamos: a pessoa não pode falhar. Depois, ao primeiro desapontamento, desvalorizamos: a pessoa nunca prestou. Entre um extremo e o outro, perde-se o mais importante: a pessoa real, com contributos reais e falhas reais.
Isto leva-me a outro ponto: a maturidade emocional que nos pede outra coisa. Pede-nos a capacidade de sustentar a ambivalência, ou seja, reconhecer que a mesma pessoa pode ter feito escolhas que criticamos e, ao mesmo tempo, ter dado contributos que merecem reconhecimento. Uma coisa não apaga a outra. Nem deve.
Mas, antes de avançar, devo traçar aqui uma fronteira, porque ela importa-me, como pessoa e como profissional. Não estou aqui a incluir tudo, a “pôr tudo no mesmo saco”. Há atos que destroem vidas e que causam danos irreparáveis. Nestas situações, não estamos a falar de “decisões com que discordamos”; são situações e atos de outra ordem perante os quais ninguém deve gratidão. A gratidão nunca é uma obrigação – e muito menos uma obrigação de quem foi magoado. O que pretendo descrever com este artigo é outra coisa: a vasta zona intermédia onde vive quase toda a gente, feita de pessoas que fazem bem e que também fazem escolhas que criticamos. É dessa zona que falo.
A gratidão não elimina o espírito crítico. Torna-o mais justo.
Mais de vinte anos de dedicação a uma camisola não desaparecem por causa das decisões de que discordamos. E as decisões de que discordamos não desaparecem por causa de mais de vinte anos de dedicação. As duas coisas coexistem. Como coexistem, aliás, em cada um de nós, ainda que numa escala mais pequena e menos observada.
Neste artigo escolho, deliberadamente, olhar para o lado do reconhecimento. Mas peço-lhe que não confunda esta escolha com cegueira. O outro lado existe. Não o esqueço, tal como não lhe peço que o esqueça.
Muito mais do que um futebolista
Não vou contar-lhe a biografia de Cristiano Ronaldo. A história é conhecida e não precisa de mim para ser contada. Vou usá-la apenas para sustentar uma ideia: ninguém chega onde ele chegou por acaso.
De todo o percurso – do Funchal, onde nasceu em 1985, aos maiores clubes da Europa e do mundo – guardo um único episódio, porque é nele que essa ideia começa. Aos 12 anos, saiu da Madeira para jogar no Sporting, em Lisboa. Uma criança, longe da família, a apostar tudo numa possibilidade.
Não conto isto para a comover. Conto-o porque é ali, tão cedo, que aparece o padrão que atravessa toda a carreira: escolher o caminho difícil – e ser capaz de sustentar essa escolha ao longo do tempo.
Os números, lidos com calma, contam o resto dessa história que vai muito além do talento. Marcou perto de mil golos oficiais ao longo da carreira – o maior registo da história do futebol masculino. É, também no futebol masculino, o jogador com mais internacionalizações e mais golos de sempre ao serviço de uma seleção nacional. Marcou por Portugal durante 23 anos consecutivos e tornou-se o primeiro jogador da história a marcar em seis Campeonatos do Mundo – o primeiro aos 21 anos, o último aos 41.
Detenha-se um momento neste último dado. Vinte anos de distância entre o primeiro Mundial e o último. Vinte anos no topo de uma das profissões mais competitivas e fisicamente mais exigentes do planeta. Podemos notar aqui um padrão de grande paixão e dedicação por algo em que ele acreditava.
Isso não se explica apenas pelo talento. O talento abre portas; não garante a permanência no topo.
E há aqui uma nuance que me importa muito sublinhar, até por aquilo que acompanho, todos os dias, no meu trabalho:
Dedicação não é sinónimo de sacrifício sem limites.
Seria fácil ler a carreira de Cristiano Ronaldo como um elogio a quem trabalha até à exaustão. Seria fácil e seria errado. Digo isto porque a sua longevidade não se construiu a esgotar o corpo. Construiu-se, precisamente, a cuidar dele. O sono, o descanso, a recuperação, a alimentação nunca foram, para ele, tempo perdido nem sinal de fraqueza. Foram sempre parte do treino e, talvez, a parte mais inegociável.
Ninguém dura vinte anos ao mais alto nível a ignorar os limites do próprio corpo. Dura-se ao mais alto nível respeitando-os.
Esta distinção é, tantas vezes, o que separa uma vida profissional sustentável de um caminho direto para o esgotamento. Trabalhar com seriedade não é trabalhar sem parar. É saber que a pausa também faz parte do trabalho, que o descanso não rouba rendimento, mas devolve-o.
Podemos discutir muitas coisas sobre Cristiano Ronaldo. Mas acredito que o trabalho – e a inteligência com que o geriu – não é uma delas.
O homem que ajudou Portugal a acreditar
Durante muito tempo, Portugal viveu com a narrativa do “quase”.
Quase, em 1966, com Eusébio.
Quase, em 2004, quando perdemos uma final em casa.
Quase, tantas outras vezes, em meias-finais que prometiam e não cumpriam.
Fomos construindo uma identidade futebolística – e, suspeito, não apenas futebolística – feita de talento e de desconfiança. Jogávamos “bonito”, mas, lá no fundo, poucos acreditavam que fôssemos mesmo capazes.
E depois chegou a noite de 10 de julho de 2016.
Há uma imagem dessa noite que ficou na memória de muita gente. Cristiano Ronaldo, capitão, sai lesionado aos 25 minutos da final. Em lágrimas. O jogo mais importante da sua vida foge-lhe por entre os dedos. Quem viu, lembra-se: junto ao banco, de perna ligada, transformou-se em treinador improvisado, a puxar pelos colegas até ao último segundo. E Portugal ganha na mesma. Ganha com um golo de Éder, o jogador de quem quase ninguém esperava nada. Ganha com onze em campo, com um banco inteiro e com um treinador que nunca deixou de acreditar.
E deixe-me ser clara sobre o que esta imagem significa. Não vou dizer-lhe que Portugal ganhou por causa do que Ronaldo fez ou não fez naquela noite. Ninguém pode afirmar isso, e afirmá-lo seria injusto para quem esteve em campo a jogar. O que aquela noite mostrou foi outra coisa, para mim, mais interessante: a vitória não dependia de um homem. Foi inteiramente coletiva. E, ainda assim, ninguém consegue separá-la do percurso de mais de uma década que ele fez com aquela camisola.
Mas o que me interessa daquela noite não é a distribuição dos méritos. É o que ela fez a quem a viveu.
Nessa noite, um país inteiro acreditou. E não foi apenas futebol.
A Psicologia tem estudado o que estes momentos fazem a um povo. Um estudo longitudinal realizado na Alemanha, precisamente durante o Euro 2016, registou um aumento significativo da satisfação com a vida durante a competição, sobretudo entre quem a acompanhava. No Chile, depois da vitória na Copa América desse mesmo ano, investigadores observaram que o orgulho coletivo se associou a mais bem-estar e até a mais confiança entre as pessoas.
Sendo rigorosa, é verdade que não conheço nenhum estudo que tenha medido diretamente a confiança dos portugueses antes e depois do Euro 2016, mas o que a ciência nos oferece são dados de outros países, nesse mesmo ano, a apontar todos na mesma direção. E a experiência que muitos de nós guardamos daquela noite – a sensação de pertença, de orgulho, de “afinal somos capazes” – é inteiramente consistente com essa evidência.
Identidade coletiva. Pertença. Confiança partilhada. São necessidades psicológicas profundas, que raramente se alimentam à escala de um país inteiro. Aquela noite foi um desses raros momentos.
Uma vitória num campeonato não muda a vida concreta de ninguém. Mas muda, ainda que temporariamente, a forma como as pessoas se sentem em relação a si próprias e entre si. E há mudanças que começam exatamente aí: na possibilidade de nos imaginarmos capazes.
E talvez seja também aí que mora uma outra mudança, que não sei medir mas sei sentir – e talvez o leitor a sinta também. Houve um tempo em que ser português, lá fora, se dizia baixinho. Quase a pedir licença.
Hoje diz-se de outra maneira. Com mais à-vontade. Com mais orgulho. Esse orgulho não nasceu de um homem nem de uma noite – nasce de muitas conquistas, em muitas áreas, ao longo de muitos anos, e uma coisa vai puxando a outra. Mas as noites como aquela alimentam-no. E os percursos como o de Cristiano Ronaldo dão-lhe rosto.
O impacto para além do futebol
Enquanto alguns contributos se podem medir, outros apenas se reconhecem. Vale a pena olhar para ambos, com o cuidado de distinguir, em cada passo, a evidência da interpretação.
No plano económico, um estudo de um instituto português de gestão e marketing estimou em 609 milhões de euros o impacto da conquista do Euro 2016 na economia nacional, somando consumo, publicidade, viagens e outros efeitos associados. Convém ler este número pelo que ele é: uma estimativa de mercado, não uma certeza científica. Ainda assim, dá uma ideia da dimensão daquilo que um momento desportivo pode movimentar num país.
No turismo, a evidência é mais sólida. Investigadores da Universidade de Coimbra estudaram a relação entre a notoriedade de Cristiano Ronaldo e a imagem internacional da Madeira. Concluíram que essa notoriedade influencia toda uma cadeia de atitudes e comportamentos com impacto positivo no turismo da ilha e assinalaram a relação entre a sua presença mediática e a votação expressiva que levou a Madeira a ser eleita, ano após ano, o melhor destino insular da Europa.
E depois há o alcance, esse dado difícil de traduzir em euros. Cristiano Ronaldo tornou-se a primeira pessoa do mundo a ultrapassar mil milhões de seguidores somados nas redes sociais. Pense no que isto significa para um país com cerca de dez milhões de habitantes. Durante duas décadas, uma das faces mais reconhecidas do planeta disse, em todos os continentes e em todas as línguas, a palavra “Portugal”.
Este último Mundial deixou, aliás, um sinal impressionante desse afeto global. Portugal chegou à prova como a única seleção com os três jogos da fase de grupos esgotados. E, segundo os dados divulgados pela FIFA, o jogo mais requisitado de toda a fase de venda de bilhetes – à frente da própria final – foi o Colômbia-Portugal. A explicação é múltipla: uma geração talentosa, uma diáspora enorme, a despedida anunciada de Ronaldo. Mas o padrão repete-se há duas décadas. Onde ele joga, o mundo quer ver. E, ao vê-lo, vê-nos.
Há ainda um fenómeno mais largo, que os números do turismo confirmam ano após ano e que a imprensa internacional repete: Portugal está na moda. Visitam-nos como nunca, escolhem-nos para viver, elogiam aquilo que durante muito tempo nós próprios desvalorizámos. Seria absurdo atribuir isto a um homem; este mérito distribui-se pelo país inteiro, do turismo à ciência, da gastronomia à cultura. Mas a imagem de um país constrói-se por acumulação: cada português que se destaca no mundo acrescenta-lhe uma camada. E poucos acrescentaram camadas tão visíveis, durante tanto tempo, como ele.
Quantas campanhas de promoção externa valeriam este efeito? Não sabemos. E é honesto admitir que não sabemos. Mas seria estranho fingir que não vale nada.
Porque é que Ronaldo inspira milhões de pessoas
Volto à Psicologia, porque é dela que percebo.
O que é que, em termos psicológicos, faz de alguém uma fonte de inspiração?
A investigação sobre a excelência dá-nos uma primeira pista. Sabemos hoje que a alta performance trabalha-se, em grande medida, através daquilo a que chamamos prática deliberada, o que significa treino estruturado, com objetivos específicos, feedback constante e esforço mantido ao longo de muitos anos. E sabemos também – o que é menos citado, mas igualmente demonstrado – que os melhores do mundo, em qualquer área, tratam a recuperação como parte do método. Nos estudos clássicos sobre músicos de elite, os melhores não eram apenas os que treinavam de forma mais estruturada; eram também os que dormiam mais e protegiam melhor o seu descanso. A excelência sustentável inclui a pausa. Sempre incluiu.
A carreira de Cristiano Ronaldo é, a este nível, quase um caso de estudo: os treinos com propósito, a gestão minuciosa do corpo e do sono, a reinvenção constante do próprio jogo à medida que a idade avançava.
Mas ser excelente não chega para inspirar. A investigação sobre modelos – aquilo a que chamamos role models – acrescenta a peça que falta. Aprendemos muito por observação: ver alguém conseguir algo faz com que esse algo comece a parecer possível também para nós. E os estudos nesta área mostram uma coisa curiosa: os modelos inspiram sobretudo quando o seu sucesso nos parece, de alguma forma, alcançável, quando conseguimos ver o caminho, e não apenas o resultado.
E aqui está, creio, o segredo da inspiração que ele exerce sobre tanta gente.
O talento de Cristiano Ronaldo é inimitável. Mas o método não é. Trabalho com propósito, consistência, disciplina, cuidado com o corpo, capacidade de se levantar depois de cada derrota – tudo isto é visível, compreensível e, à escala da vida de cada um de nós, replicável. Um menino do Funchal, sem recursos, que chegou ao topo do mundo e lá permaneceu vinte anos; esta história diz a milhões de pessoas algo muito simples e muito poderoso: o ponto de partida não dita o ponto de chegada.
Um modelo não nos inspira por ser perfeito. Inspira por tornar o caminho visível.
É por isso que tantas crianças – em Portugal e muito para além de Portugal – cresceram a treinar mais um bocadinho “porque o Ronaldo também treina”. Podemos sorrir perante a ideia. Mas, do ponto de vista do desenvolvimento humano, isto é muito significativo.
O verdadeiro tópico deste artigo
Chegados aqui, deixe-me repetir o que já lhe disse no início.
Este artigo nunca foi verdadeiramente sobre futebol.
Foi sobre gratidão. Sobre reconhecimento. Sobre a nossa dificuldade em agradecer e a nossa facilidade em criticar. E foi sobre saúde mental – porque reconhecer o bem, nos outros e na nossa própria vida, é também uma forma de cuidarmos de nós.
Para ser sincera, este artigo diz menos sobre Cristiano Ronaldo do que sobre aquilo em que eu acredito.
E, já agora, deixe-me acrescentar uma outra coisa em que também acredito: reconhecer não é divinizar. Agradecer a alguém não é colocá-lo num pedestal, nem apagar-lhe os erros. É vê-lo por inteiro – com os contributos e com as falhas – e escolher, de forma consciente, nomear a parte boa. Os pedestais, aliás, fazem mal a toda a gente: a quem é colocado lá em cima e a quem fica cá em baixo a construí-los.
Acredito que devemos reconhecer o bem que as pessoas fazem, mesmo quando não concordamos com todas as suas decisões, sem esquecer a fronteira que tracei atrás: há males que não são discordâncias, e perante esses a gratidão não é devida.
Acredito que devemos celebrar quem contribui para o bem comum, em vez de esperar pela despedida – ou por algo mais definitivo – para o fazer.
Acredito que a gratidão fortalece pessoas, relações e comunidades.
E acredito que agradecer tem prazo: o tempo dos agradecimentos, ao contrário do tempo das críticas, não espera por nós.
Os jornais continuarão, naturalmente, a fazer as suas análises e comentários. E está certo que o façam. Faz falta quem analise.
Hoje, eu escolho agradecer.
Obrigada, Cristiano.
Não nos conhecemos. E quero começar por lhe dizer, com a mesma honestidade com que escrevi tudo o resto: não lhe escrevo como fã. Há decisões suas de que discordo – e das quais continuarei a discordar. Esta carta não apaga nada disso.
Mas hoje não venho julgar. Venho agradecer.
Porque a verdade é que fez parte da minha história e da de milhões de portugueses. Esteve nas nossas salas, nas noites de verão com a família reunida à volta da televisão. Esteve nos cafés cheios, nos abraços trocados com desconhecidos que, por uns minutos, deixaram de o ser. Esteve nas conversas entre avós e netos que, de outra forma, talvez tivessem tido menos assuntos em comum. Crescemos consigo.
Sei que nada do que conquistou foi conquistado sozinho. Houve colegas, treinadores, uma família, adversários que o obrigaram a ser melhor. Parte deste “obrigada” também lhes pertence. Mas é a si que hoje escrevo.
Muito provavelmente, nunca lerá estas palavras. Escrevo-as na mesma, porque os agradecimentos que ficam por dizer também pesam, sobretudo a quem não os disse.
Obrigada pelo seu trabalho. Pelos milhares de treinos que ninguém viu – e cujos frutos, de uma forma ou de outra, chegaram a todos nós.
Obrigada pela disciplina – não pela que praticou por si, mas pelo que ela nos mostrou: que o talento se cultiva todos os dias, e que cultivar inclui, também, saber parar, descansar e cuidar de si.
Obrigada pela perseverança. Por se ter levantado de todas as derrotas – e foram muitas – diante de milhões de pessoas que, sem darem conta, iam aprendendo a levantar-se também.
Obrigada por representar Portugal durante 23 anos. Por ter feito da nossa bandeira uma presença constante nos maiores palcos do mundo.
Obrigada por aquela noite de julho de 2016 – que foi sua e de uma equipa inteira. Pelo que ela nos deu, e que nenhuma estatística consegue medir.
Obrigada pelo orgulho. Pela parte que lhe cabe – e não foi pequena – na forma como hoje dizemos, em qualquer canto do mundo e de cabeça erguida, que somos portugueses.
Obrigada por inspirar milhões de crianças, e de adultos, a acreditar que o esforço conta e que o lugar onde se nasce não decide o lugar onde se chega.
Obrigada pelas memórias. Essas vão ficar muito para além do futebol.
Não escrevo este texto porque Cristiano Ronaldo precise do meu agradecimento. Tenho a certeza de que não precisa.
Escrevo-o porque acredito que eu preciso de agradecer. Porque a gratidão é uma virtude que se treina – e, tal como o talento, atrofia quando não é exercida. Porque agradecer não me torna menos crítica. Torna-me, espero, mais justa.
Obrigada, Cristiano.
Hoje escolho agradecer.
E agora, uma pergunta para si
Este artigo foi o meu agradecimento.
Mas talvez não seja este meu agradecimento o mais importante aqui. Possivelmente, o mais importante aqui é esta pergunta para si: a quem deve um obrigada que ainda não disse?
Pense numa pessoa. Todos temos uma. Alguém cujo contributo se tornou invisível de tão constante. Alguém que faz o bem, há muito tempo, sem que ninguém pare para o dizer. Alguém que ainda está connosco – e a quem, precisamente por isso, ainda vamos a tempo de agradecer.
Não precisa de escrever um artigo. Basta uma mensagem. Uma chamada. Uma frase dita ao jantar, olhando a pessoa nos olhos.
Não espere pela despedida.
Hoje é um bom dia para escolher agradecer.
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Perguntas Frequentes Sobre Gratidão e Reconhecimento
1. A gratidão tem mesmo benefícios comprovados para a saúde mental?
Sim. A investigação mostra que a prática regular da gratidão se associa a mais bem-estar e a menos sintomas de ansiedade e de depressão. Os efeitos são reais, ainda que modestos – a gratidão é um apoio, não uma solução.
2. Ser grata a alguém significa concordar com tudo o que essa pessoa faz?
Não. A gratidão e o espírito crítico podem – e devem – coexistir. Reconhecer o bem que alguém fez não nos impede de discordar de algumas das suas escolhas. Pelo contrário: torna a nossa avaliação mais justa e mais completa. Importa, porém, distinguir: discordar não é o mesmo que sofrer um dano grave. Perante atos que ferem seriamente, ninguém é obrigado a gratidão, tal como ela nunca deve ser exigida a quem foi magoado.
3. Porque é que temos tanta dificuldade em reconhecer o bem que os outros fazem?
Porque a nossa mente dá naturalmente mais peso ao negativo (viés de negatividade) e habitua-se ao que é bom (adaptação hedónica). Reconhecer e agradecer exige, por isso, uma escolha consciente.
4. Trabalhar muito é o caminho para o sucesso?
Trabalhar com propósito e consistência, sim. Trabalhar até à exaustão, não. A investigação sobre alta performance mostra que o descanso e a recuperação fazem parte do método dos melhores. Dedicação não é sinónimo de sacrifício sem limites.
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Nota de Transparência
Este artigo baseia-se no conhecimento psicológico atual sobre gratidão (Emmons & McCullough, 2003; Diniz et al., 2023; Choi et al., 2025), viés de negatividade (Baumeister et al., 2001; Rozin & Royzman, 2001), adaptação hedónica (Brickman & Campbell, 1971), identidade coletiva e bem-estar associado a conquistas desportivas (Mutz, 2019; Bravo et al., 2020), e motivação e alta performance (Ericsson et al., 1993; Locke & Latham, 2002; Bandura, 1986; Lockwood & Kunda, 1997; Morgenroth et al., 2015). Inclui ainda investigação portuguesa sobre o impacto de Cristiano Ronaldo na imagem internacional da Madeira (Seabra & Vaz Serra, 2021) e estimativas de impacto económico do Euro 2016 divulgadas pela imprensa (IPAM, 2016). As ideias apresentadas são sustentadas por investigação científica, mas foram traduzidas para uma linguagem simples e acessível, para facilitar a reflexão. Os dados sobre a carreira de Cristiano Ronaldo têm como fonte a UEFA, a FIFA e a imprensa desportiva, à data de 7 de julho de 2026.
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