
Quando se pensa em ansiedade, é comum pensarmos num estado negativo, desconfortável, que nos condiciona e que muitas vezes é visto como prejudicial ao nosso bem-estar emocional e mental.
Mas e se a ansiedade tiver, afinal, o papel de nos impulsionar a procurar novas soluções, estimular a criatividade e promover o crescimento pessoal?
Esta é uma das coisas que o novo filme da Disney Pixar, “Divertida-Mente II”, nos mostra de forma simples e divertida. Fique tranquila que não há spoiler. E também gostava de lhe dizer que, apesar de parecer um filme para crianças, recomendo que os adultos o vejam, para que possam aprender um pouco mais sobre as emoções e como funcionam, até porque algumas das mensagens são bastante complexas para as crianças perceberem de imediato. Se ainda não viu o primeiro filme, comece por aí. Mas agora vamos falar do “Divertida-Mente II”.
No universo encantador de “Divertida-Mente II”, além da personificação das emoções básicas como a Alegria, a Tristeza, a Raiva, o Medo e o Nojo, surgem agora novas personagens, entre elas, a Ansiedade.
Neste artigo, partilho consigo alguns insights e aprendizagens que pode retirar do filme sobre as emoções e como elas estão intrinsecamente relacionadas com a fisiologia do cérebro humano.
E reafirmo dizer-lhe, de pouco ou nada adianta reprimir as emoções, quer as sinta como positivas ou negativas. Até porque nem tudo é preto ou branco.
Mas vamos por partes.

O Papel da Fisiologia do Cérebro nas Emoções
O nosso cérebro é como um maestro que dirige as nossas respostas emocionais. Regiões como o córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisões e a gestão emocional, e o sistema límbico, que inclui a amígdala e o hipotálamo, desempenham um papel fundamental na regulação e processamento das nossas emoções. Estudos científicos têm demonstrado que atividades específicas nessas áreas estão diretamente relacionadas com estados emocionais como a alegria, a tristeza e o medo.
A alegria, por exemplo, está associada à atividade em áreas como o córtex cingulado anterior e o córtex pré-frontal. Essas regiões são responsáveis pela avaliação de recompensas e pela regulação de emoções positivas. Em alguns estudos de neuroimagem funcional foi possível observar que a ativação dessas áreas está relacionada com sentimentos de felicidade e prazer, indicando que o cérebro processa a alegria através de circuitos neuronais que promovem a sensação de bem-estar.
Já o medo, é predominantemente regulado pelo sistema límbico, especialmente pela amígdala, também conhecida como cérebro reptiliano – aquela parte primitiva da psique que está permanentemente em modo de sobrevivência, e que age apenas por instinto. Esta estrutura recebe informações sensoriais e avalia potenciais ameaças, desencadeando respostas físicas, como aumento da frequência cardíaca e preparando o corpo para a ação de luta ou fuga.
Sabermos disto, ajuda-nos a compreender como as diferentes emoções são processadas no cérebro, mas também nos permite desenvolver estratégias eficazes no tratamento de distúrbios emocionais.
Mas não é só a fisiologia do cérebro que influencia as emoções. A biologia e os neurotransmissores também.

Influência da Biologia nas Emoções
Além da estrutura cerebral, a biologia também influencia as nossas emoções. Neurotransmissores como a dopamina e a serotonina influenciam a regulação do humor e da sensação de prazer, enquanto hormonas como o cortisol estão associadas a respostas ao stress.
É por isso que, nos meus processos de coaching, há sempre uma sessão dedicada ao cérebro e ao seu funcionamento. Até porque só podemos lidar eficazmente com as nossas emoções quando compreendemos estes mecanismos e os aceitamos como parte da condição de ser humano.
Então e o filme “Divertida-Mente II”, o que tem que ver com tudo isto?

Paralelismos com “Divertida-Mente II”
No filme, as emoções são personificadas – ainda que a Ansiedade não seja bem uma emoção, na verdade -, o que simplifica e humaniza o complexo processo emocional. Aliás, a interação entre estas emoções dentro da mente da personagem principal, reflete, na prática, o equilíbrio delicado de que todos necessitamos para lidar com as situações do dia a dia.
Mas vamos ver que paralelos podemos estabelecer entre as personagens de “Divertida-Mente II” e a ciência das emoções humanas.
Alegria:
A líder otimista e enérgica. Reflete o papel dos neurotransmissores que promovem sentimentos de motivação e recompensa, como a dopamina de que lhe falei acima.
Tristeza:
Reconhecida pela sua introspeção e empatia, demonstra a importância da reflexão emocional que ocorre nas regiões cerebrais como o córtex cingulado anterior.
Raiva:
Intensa e explosiva. Ilustra a função do córtex pré-frontal na moderação de respostas impulsivas e na regulação do comportamento. É importante para o nosso instinto de defesa. A sua cor vermelha reflete o rubor e o calor que normalmente sentimos quando experienciamos esta emoção. Todos já ficámos, numa ou noutra ocasião, vermelhos de raiva, certo?
Medo:
Protetor e vigilante. Representa a resposta de luta ou fuga mediada pela amígdala, ajudando no equilíbrio das escolhas que surgem no caminho de Riley. E, apesar de ser um sentimento que geralmente procuramos evitar, a verdade é que ele também é necessário para um desenvolvimento saudável, seja em que idade for.
Nojo:
Responsável pela aversão e repulsa. Com uma postura elegante e até convencida, representa o nosso processamento sensorial e emocional.

Ansiedade:
Não é à toa que esta personagem surja agora que Riley, a personagem principal, está prestes a entrar na adolescência. Esta nova personagem destaca a sua função adaptativa na antecipação de desafios e na preparação para situações de stress. Tanto a Ansiedade como a Raiva, não têm nariz. Em jeito de curiosidade, podemos associar esta particularidade ao facto de, quando estamos num desses estados, nos ser mais difícil regular a respiração. Faz sentido, não faz? Além disso, a Ansiedade também se apresenta de cabelos em pé – não preciso de explicar porquê, pois não?
Inveja:
Representada como uma emoção complexa de desejo e insatisfação, surge como uma personagem pequena. Podemos atribuir esta emoção a uma interação entre a perceção e o julgamento social, envolvendo áreas do cérebro responsáveis pelo processamento das emoções sociais e das comparações interpessoais. A neurociência sugere que a inveja pode estar relacionada com a atividade no córtex pré-frontal, que regula a avaliação das nossas próprias realizações em comparação com as dos outros.
Vergonha:
Representada no filme como uma emoção que nos faz querer esconder ou retrair. Está ligada às partes do cérebro de que dependem a regulação da nossa autoconsciência e a avaliação dos comportamentos em relação a padrões éticos e sociais e morais.
Tédio:
Surge quando nos encontramos em situações monótonas ou repetitivas, onde não há estímulo suficiente para manter a nossa atenção ou motivação. Está associado à atividade reduzida em áreas do cérebro envolvidas no processamento de recompensas e na regulação do humor, como o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior.
Agora que vimos como cada personagem se relaciona com a forma como o nosso cérebro funciona, é importante percebermos o impacto que as emoções e a forma como as processamos têm na vida real.

Impacto na Vida Real
Compreender a fisiologia do cérebro e a sua relação com as emoções humanas pode mudar a nossa perspetiva em relação ao nosso bem-estar emocional e a nossa abordagem no dia a dia. Sabendo como as nossas experiências emocionais são influenciadas pela biologia dá-nos ferramentas para adotar estratégias eficazes para gerir o stress e promover o equilíbrio emocional.
Além disto, é importante lembrarmo-nos de que as emoções desempenham uma função, e até estados emocionais mais desafiantes, como a ansiedade, têm um lado benéfico.
A ansiedade, na verdade, numa apresentação importante, por exemplo, pode-nos manter alertas e focadas, melhorando o nosso desempenho. Só é preciso que a saibamos gerir. Assim, vai poder torná-la numa aliada.
Por vezes, as nossas emoções podem ser demasiado fortes, mas isso não significa que haja algo de errado connosco. Estas emoções, loucas, caóticas e confusas, estão aqui apenas para nos lembrar de que não há problema se cometermos erros. Que não faz mal se falharmos. Que não faz mal se nem sempre estivermos bem. Nem se não formos a pessoa “perfeita” que (achamos que) os outros esperam que sejamos.
As nossas emoções podem difíceis de gerir, sim é verdade. Mas acredite, é possível. E, se gostava de lidar melhor com o que sente, comece devagar.
Técnicas como a respiração profunda, a meditação, o mindfulness e o exercício físico são estratégias comprovadas para reduzir os níveis de stress e ansiedade e promover um estado de calma e equilíbrio emocional.
Afinal, é isso que procura, não é?


