Em momentos em que temos dificuldade em perspetivar o futuro, é comum depararmo-nos com um turbilhão de emoções. Na situação concreta em que estamos a viver atualmente, o medo é comum e, deve dizer-se, muito normal. Este medo pode resultar da situação em si, mas pode também estar associado a outros sentimentos, como a impossibilidade de agir, por exemplo.
Neste artigo vou explicar-lhe o que é o medo, porque é que pode ser prejudicial ao seu bem-estar, mas, sobretudo, o que pode fazer no seu dia a dia para lidar com ele.
O que é o medo?
Antes de mais, é importante dizer que o medo é uma emoção primária e, por isso, inata. Todos, em determinado momento das nossas vidas, sentimos medo. É um sentimento comum a todos os indivíduos. Inclusive, é sentido por todos os animais. E, como tal, está intimamente ligado ao instinto de sobrevivência.
O medo caracteriza-se por ser um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência crescente perante a possibilidade de vir a acontecer algo que queremos evitar, mas não nos sentimos capazes de o fazer.
As diferentes fases do medo e porque é que o medo pode ser prejudicial
O medo atravessa diferentes fases e vai aumentando de intensidade mediante a fase em que nos encontramos.
- Prudência
- Cautela
- Alarme
- Ansiedade
- Pânico
- Terror
Se as fases 1 (Prudência) e 2 (Cautela) nos alertam os sentidos e nos fazem avaliar o grau de risco que temos perante nós, as fases seguintes podem provocar paralisação, angústia, impedir-nos de agir ou, pelo contrário, levar-nos a ações irrefletidas que, em última instância, podem colocar em causa o nosso bem-estar e o dos outros.
Assim, é importante sabermos avaliar o estado em que nos encontramos (ou pedir ajuda a um profissional para o fazer por nós), de modo a que consigamos manter o nosso medo nos níveis de prudência e cautela.
O medo só começa a ser prejudicial quando apenas prestamos atenção ao que não queremos que aconteça e, reagindo a isto, ficamos paralisados ou agimos apenas com base nisto.
Nesta fase, é natural que se sinta com medo. Não há qualquer mal nisso, é perfeitamente natural. Sentir-se ansioso, preocupado ou, até, zangado com a situação é normal. Pode também estar a experienciar sentimentos como a solidão, se estiver isolado e sem sair de casa há alguns dias. A frustração também é uma emoção bastante comum em situações como a que estamos a viver. Afinal, não podemos realizar as nossas atividades tal como tínhamos planeado, não estamos a dar cumprimento às nossas rotinas e, se calhar, até há projetos que queríamos começar e que, assim, terão de ser adiados.
Tudo aquilo que está a sentir é compreensível e permita-se aceitar as suas emoções. Não se julgue por se sentir assim.
Importância da Inteligência Emocional para lidar com o medo
Aceitar as nossas emoções não implica entregarmo-nos a elas indefinidamente. Pelo contrário, é aceitá-las que nos vai permitir encontrar estratégias para lidar com elas.
Fazê-lo de forma eficaz é ser emocionalmente inteligente.
Para isso, experimente o que lhe ponho em seguida.
1 . Observe o que está a sentir
Conhecermo-nos é conhecermos a forma como reagimos em determinadas situações. Estarmos atentos às nossas sensações físicas e aos nossos pensamentos, como meros observadores, vai permitir-nos identificar mais facilmente o que estamos a sentir.
Quando se sentir a ficar nervoso ou ansioso, pare. Pare mesmo. Respire fundo três vezes e observe. O que sente? Que pensamentos está a ter? Estes pensamentos estão associados ao medo daquilo que pode acontecer?
2 . Atribua um nome àquilo que está a sentir
É medo? É frustração? É raiva? É tristeza? Pode até ser um misto disto tudo, mas haverá sempre uma emoção que é mais forte do que as outras. Procure identificá-la. Escreva sobre tudo o que está a sentir. Este processo de escrita vai desacelerar os seus pensamentos e permitir-lhe ganhar mais consciência deles.
Vamos supor que o medo é, de facto, a emoção mais forte. Pergunte-se: De que tenho medo? O que pode acontecer de mau? O que é que estou a imaginar? Este medo é um alerta para um perigo iminente? Neste exato momento estou em risco? Que sensações físicas me traz este medo? Que sensações quero ter em vez destas? Que coisas me trazem estas sensações mais agradáveis que quero sentir?
3. Encontre uma forma de atenuar a emoção desagradável que está a sentir
Você saberá melhor do que ninguém que atividades lhe provocam a sensação de paz e tranquilidade. Faça uma lista e recorra a ela sempre que sentir necessidade. A sua lista pode incluir:
- Visualização: imagine-se fora desta situação e visualize, com o máximo detalhe possível, tudo aquilo que vai querer fazer quando esta situação que lhe causa medo e angústia passar (porque vai passar!); descreva de forma detalhada, por escrito, o que vê e sente, como se já estivesse a experienciar esse momento.
- Mudança de ambiente: vá à varanda ou à janela. Procure sinais que o tranquilizem – um pássaro, o vento a bater nas copas das árvores, o céu, as nuvens em movimento…
- Mude a sua posição corporal: faça uns alongamentos, espreguice-se, ponha uma música a tocar e dance.
- Respire: feche os olhos e faça algumas respirações profundas e pausadas.
4. Fale com outras pessoas sobre o que está a sentir.
Falar ajuda-nos a colocar as coisas em perspetiva e ajuda-nos a libertar as emoções. Se não quiser ou não puder fazê-lo com alguém próximo, recorra a um profissional. Apesar das limitações de contacto social físico, felizmente, vivemos numa era em que a tecnologia nos permite mantermo-nos perto uns dos outros.
Estratégias práticas para aplicar no seu dia a dia
- Cuide de si. Mantenha horários de descanso e sono. Faça uma alimentação equilibrada e exercício físico.
- Consulte fontes de informação credíveis e evite expor-se a notícias alarmistas.
- Mantenha o contacto social via telefone, email ou videoconferência com família e amigos.
- Realize atividades que lhe dão prazer. Sabe aquele curso que queria fazer, mas para o qual nunca tinha tempo? Faça-o agora, via online. Destralhe o armário. Mude a disposição dos móveis de sua casa. Experimente receitas novas. Brinque com os seus filhos. Veja uma série. Leia.
- Crie rotinas, mesmo que tenha de fazer alguns ajustes ao que era habitual.
- Promova a sua autoconfiança e acredite na sua capacidade para lidar com esta situação passageira. Faça uma lista dos momentos em que já foi capaz de superar desafios.
- Faça planos para o futuro, por mais indefinido que ele lhe possa parecer neste momento.
Para terminar, quero apenas relembrá-la de que mesmo estas emoções mais primárias – que, por vezes, parecem impossíveis de controlar – podem ser geridas através de pensamentos mais conscientes e ativando a parte mais racional do cérebro, o córtex pré-frontal. Por isso, tente ao máximo focar-se em ter consciência desses pensamentos e troque-os por outros que promovam a sua tranquilidade e o seu bem-estar. As emoções conseguem ser geridas e pode procurar fazê-lo com a mesma dedicação com que está a gerir a situação que nos encontramos atualmente a viver.